Maio/07 – Na manhã de uma quarta-feira, exatos quinze dias após a quimio, eu descobri que não gastaria dinheiro com cabeleireiro por algum tempo. Durante o banho matinal, no banheiro do hospital, passei as mãos na cabeça e uns vinte fios vieram enroscados nos dedos. “Ô ôu”. Levei as mãos mais uma vez à cabeça e outra porção veio junto. Fechei os olhos e busquei um restinho de pensamento positivo que pudesse estar guardado em algum canto da mente. Não encontrei. Terminei o banho o mais rápido que pude e voltei para a cama. Quando o enfermeiro entrou, um rapaz com menos de trinta anos, contei que estava me despedindo dos meus cabelos. “Pelo menos os seus vão voltar a crescer. E os meus, heim?” respondeu, mostrando sua careca em estágio avançado. E agora, Daniela? Engoli meu beicinho e desfiz a cara de coitada.
O que o enfermeiro não sabia era que aquele comentário foi o equivalente a quatro sessões de terapia condensadas em cinco segundos. Talvez eu supervalorize um pouquinho os meus problemas – ok, ok, eu SEI que supervalorizo na maioria das vezes – mas também sei reconhecer o drama alheio. E o problema capilar dele era, definitivamente, mais sério que o meu. Além disso, a queda dos cabelos era o primeiro efeito colateral da quimioterapia que não vinha acompanhado de dor, enjôo, febre ou qualquer outro desconforto físico. O único inconveniente era a minha repulsa a cabelos que se soltam da cabeça. Era fio de cabelo nos ombros, nos braços, na cama, no travesseiro, no chão… um pesadelo. Para resolver esse problema, com o namorido a mais de 400 quilômetros de distância, liguei para o meu amigo gay. “O que você vai fazer hoje à noite?”. “Tenho aula. Por quê?”. “Duvido você vir passar a máquina no meu cabelo”. Marco Aurélio não só topou faltar à aula na faculdade como ainda atravessaria a cidade duas vezes para ir em casa buscar sua máquina de cortar cabelo. Mas todos temos nossos carmas e não há nada que se possa fazer a respeito, certo?
Até a chegada do meu cabeleireiro particular, eu ainda teria que esperar pelo menos dez horas. Para me poupar do sofrimento de passar o dia recolhendo longos fios de cabelos soltos pelo corpo – ou para se distrair, não importa – minha mãe resolveu cortar meus cabelos bem curtinhos. “Essa tesourinha de costura vai resolver, Dani, senta aqui”. Duas horas depois, o resultado foi um corte tão pavoroso que eu desejei que todos os fios de cabelo caíssem imediatamente. Infelizmente, o jeito era esperar.
Quando entrou no quarto, Marco parecia tenso. Provavelmente apreensivo pelo que estava por vir, esperando uma cena típica de novela das oito, com muito choro e música do Kenny G ao fundo. A minha ansiedade era tamanha que mal o cumprimentei. “Vamos consertar logo essa tragédia que a minha mãe fez, por favor”. Assim que pegou a tesoura, Marco Aurélio foi tomado pelo espírito de algum cabeleireiro gay que vagava pelo hospital. Mostrou incrível habilidade e uma inesperada afetação na voz enquanto acertava o estrago feito pela tesourinha de costura. Depois, lamentando por ter que destruir sua obra de arte, eliminou o que restava de cabelo com a máquina. Ao olhar minha nova imagem no espelho, confesso que notei um certo charme naquele visual. Enfiei-me embaixo do chuveiro para espantar qualquer sinal de desânimo e vestígio da tosa. Sentir a água batendo diretamente no couro cabeludo é, no mínimo, diferente, assim como encostar a cabeça no travesseiro frio. Na primeira noite, em pleno inverno, eu levantei para ir ao banheiro. Sonolenta, lembrei que estava careca quando abri a porta do banheiro e senti o vento gelar minha cabeça. Uma tristeza repentina ameaçou se instalar. Afastei-a pensando no enfermeiro e sua falta de perspectiva. E, principalmente, na minha cura.
Resumindo, perder os cabelos durante um tratamento contra o câncer é como entregar a bolsa a um assaltante armado: “Toma, leva tudo mas me deixa viva”.


Olha, devo te dizer que ri horrores com suas tiradas sobre o
Marco Aurélio, mas me arrepiei quando li a última frase. E pensar que tem gente que acha que a vida acabou só porque não conseguiu o ingresso prum show no lugar mais perto do palco…
Te admiro muuuuito, viu?
Eu achava que tudo seria muito traumático, até ler esse post. Você realmente sabe como colocar as coisas em perspectiva. Fiquei imaginando quanto progresso eu faria na minha vida se pensasse assim. Sério. Beijos.
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Pense bem, tudo na vida tem um lado bom. Seja prática, veja a economia que irá fazer.
Vá separando esse valor e dê uma festa num futuro próximo, quando isso tudo não passar de lembrança. Mas me convide, pois praga de careca pega que é uma beleza !!!!
Tudo mentira. Tudo mentira. TUDO. MENTIRA.
o Marcorélio deveria deixar de ser chato. Afinal, essa gayzice dele é algo eventual, só ativada quando ele tem que atuar como seu cabelereiro.
Eu tenho uma amiga que inventou para um pretendente que eu era gay para evitar ciúmes. Só que a história se espalhou. E ela continua confirmando isso para quem quiser ouvir…
Daniela,
Se seu marido e minha mulher permitem o comentário, a verdade é que você estava linda careca e com aquele chapeuzinho.
Beijo
Enfim, careca… assim como o seu amigo gay, o tal de Marcurélio! hahahaha
Tal qual seu amigo e o enfermeiro, não tenho gastos com produtos capilares… e nem aos 30 cheguei ainda!
Enfim, boa sorte e pronta recuperação.
Esse blog é tududibom… Venho ver se há novos posts diáriamente… Enzimas Virtuais é minha nova religião (=
Aaaaaaaaaaaah! Você esqueceu de mencionar sua dancinha careca na frente do espelho…
Tava demorando pra você inventar alguma calúnia só pra se vingar!…
Dancinha careca. Humpf. Que absurdo.
Redêcola…
Dani,
Tenho acompanhando seu blog por meio do Jesus. Trabalhei com o Marcurélio na revista (ele era meu chefe), li o Balde de Gelo… nos tornamos amigos MAS ATÉ QUE FIM ALGUÉM NOTOU A VIADISSE hehehehe
Bem, só poderia ser você mesmo. Pessoa do Balde de Gelo e deste blog maravilhoso. Se o Marcolino perguntar algo, diga que foi a Bobbie Salles, sim a LÉBISCA do caraleo que ele tanto ama hahahaha (em tempo: também o amo hehehe)
Grande beijo!
Nossa! Amei seu texto, já li 2 vezes. Dá para visualizar toda a cena. Ainda mais vendo a foto com o cabeleireiro (alias, como conseguiu um horário? Estou na fila de espera a meses!).
Essa última frase realmente é de tirar o folego!
Beijo,
Carlos
[...] Careca, enfim Na manhã de uma quarta-feira, exatos quinze dias após a quimio, eu descobri que não gastaria dinheiro com […] [...]
BEM foda.
Adouro.
Beijo, Dani!
Bela narrativa!!!
Agora o Marcão ein! Quem diria?!
Se estamos em tempo de revelações bombásticas, direi e tão logo provarei, eu juro, Marcureia além de Lessie cabeleireira, tbm é padre…
Ser careca é um LIXO!!!
Quando voltar a crescer (21 a 28 dias depois do último ciclo de quimio), use um pouco de condicionador para cabelos ressecados em cada lavagem – mesmo curto, assim ele cresce menos “espetado”.
Oi.
Belo texto. Com a ternura que se espera de quem passou pelo que passou.
Mas o que me levou a escrever é que me sinto atraído pela idéia de escrever num blog, numa revista ou coisa que o valha. Me impressiona muito a facilidade com que você, o Depokafé e o Jesus conseguem por em palavras o que passa na cabeça e no coração. E queria mesmo ser tão hábil.
Sem inveja alguma!
…
Tá bom, um pouquinho só de inveja!
Mas com muuuita admiração!
Me digam qual o problema em ser careca?
É só cabelo não uma perna ou um tumor no cerebro,por isso vamos agrdecer a Deus por podermos ler este bélo bloog,carecas ou não (gays ou não)
AMÉM!!!