Maio/07 – Desde o momento em que descobri o nódulo até hoje, quando ainda escuto previsões sombrias de médicos pessimistas, várias vezes eu pensei na morte. Só que, naquela manhã, por alguns minutos, eu cheguei a fechar os olhos e me despedir da vida. Dramático, mas muito sincero. Meio cafona, inclusive. Credo, totalmente cafona. Vamos logo aos fatos antes que eu faça alguém vomitar.
Dr. Horse pediu para eu virar a cabeça para o lado esquerdo e jogou um pano azul cobrindo meu rosto, com um buraco no local da incisão. Dae segurava gentilmente a minha mão, para tentar me acalmar. Senti uma leve picada da anestesia no pescoço. Nada demais. Por um segundo, achei que aquilo não seria tão ruim quanto eu havia imaginado. De repente, sem avisar, o médico forçou a minha cabeça mais para o lado, dizendo que meu pescoço deveria estar bastante esticado para ele achar a veia. Soltei um gemido. Ele acabara de destravar, à força, meus músculos tensos do pescoço. “Que foi? Eu nem comecei”. Já anestesiada, nem senti o furo feito com a agulha de, sei lá, meio metro de largura. Alguns segundos depois, avisei que estava sentindo o cateter entrando na veia. “Vou dar mais anestesia”. Se deu, não adiantou. Continuei sentindo o cateter lá dentro, quase chegando no ombro. Mas quando achei que o procedimento estava no fim, ele puxou o cateter e apertou com força o buraco feito com a super agulha. Eu senti uma boa quantidade de sangue escorrendo pelo pescoço quando o médico disse para a enfermeira, numa mistura de irritação e preocupação, algo como: “o sangue dela não tá coagulando”. E, não sei se pelo pavor ou pela perda rápida de sangue, eu senti uma leve tontura. Então, antes de ser tomada pelo desespero, eu respirei fundo, fechei os olhos e tentei me convencer de que morrer era um processo natural. Mentalmente, comecei a me despedi das pessoas que amo.
Mas, como vocês podem notar, eu não morri. A tontura foi passando aos poucos e eu percebi que, além do meu pescoço, minha mão também estava sendo pressionada. “Dae, você tá apertando muito a minha mão.” “Não sou eu…”, ouvi a voz do Dae vindo do chão, ao lado do banheiro. Ele não estava se sentindo bem – aliás, ninguém naquele quarto estava – e precisou sentar. A enfermeira havia ocupado seu posto e, sabe-se lá por quê, esmagava os meus dedos. “Ai, desculpa. Nem percebi que tava apertando…”.
Quando a situação parecia enfim sob controle, perguntei se eu já poderia chorar. Eu havia segurado para evitar um maior fluxo de sangue e uma conseqüente hemorragia. Uma lógica que só faz sentido na minha cabeça, como muitas outras. Mas Dr. Horse cortou meu barato: “Vai chorar por quê?”. E a vontade de chorar foi imediatamente substituída por um ímpeto assassino quase incontrolável.
“Vira a cabeça pra direita, vou tentar do outro lado”, pediu gentilmente Dr. Horse. “Por que você não conseguiu?”. “Não conseguiu porque não consegui, ué!”. Mal virei a cabeça e senti uma espécie de paulada nas costas. A dor era tão intensa que eu comecei a gritar. A berrar feito uma louca, pra ser mais exata. “Você furou o meu pulmão?? Tem certeza que você não furou o meu pulmão??”. Ele se desesperou. “Não! Acho que não!”. Eu não conseguia respirar pois sentia uma faca cravada nas minhas costas, na altura dos pulmões. Meu escândalo trouxe a médica do andar para o quarto. “Que aconteceu?”. “Eu não consigo respirar!! Tá doendo DEMAAAAIKDKLDFKJLGS!!”. Ela meteu o estetoscópio no meu peito e garantiu que os pulmões estavam intactos. “Deve ser muscular, ela tá muito tensa”, chutou a enfermeira. Eu urrava de dor, mas o médico me fez virar a cabeça para o lado direito para uma nova tentativa. Furou o outro lado do meu pescoço, cutucou, cutucou e desistiu. Pressionou o furo por alguns minutos, tirou as luvas com raiva e decretou: “manda ela pro centro cirúrgico o mais rápido possível”. Ele iria botar um cateter em algum lugar do meu corpo com anestesia geral, mas eu estava ocupada demais gritando de dor para perguntar maiores detalhes.
Depois que Dr. Horse deixou o quarto, Dae e a enfermeira levaram um bom tempo para me convencer de que eu precisava sentar. Eu até concordava, já que não conseguia respirar direito naquela posição, mas me mexer provocava uma dor monstruosa e eu desistia. Depois de muita luta, os dois conseguiram finalmente me botar sentada. A partir daí, não lembro direito a seqüência dos fatos. Sei que fui levada para o centro cirúrgico e acordei com um cateter na veia central do braço, que a médica descreveu como: “o último recurso disponível porque isso não se usa mais, já que esse procedimento é muito perigoso… aimeudeus, eu só vou ficar tranqüila depois que você tirar isso daí”.
Olha, eu sei que é feio desejar o mal às pessoas e tal. Mas esse cara merece, no mínimo, um tratamento de canal com um dentista tão cavalo quanto ele, não?


Você é boazinha demais. Esse cara merece ser currado por um bando de babuínos no cio.
Caraca Dani, esse médico merece ser cortado em fatias bem finas, começando pelas extremidades pra demorar mais…
Tô aqui com o coração na mão, lendo seus posts e querendo saber da sua recuperação logo!!!
bjs
Como diria minha irmã, espero que ele morra de bicheira na glote.
Ah!
Acho que faltou uma palavra aqui: E a vontade de chorar foi imediatamente r por um ímpeto assassino quase incontrolável.
Acho que esse é o meu primeiro comentário aqui. Desde que a Dani começou este blog, eu sempre reclamava que ela floreava os fatos, que fazia tudo parecer mais suave e divertido do que realmente foi. Talvez para ela tenha sido. E, se foi assim, todos nós, amigos e parentes, fizemos o nosso trabalho de lhe dar o melhor apoio possível para superar estes momentos.
A saga com Dr. Horse foi a pior coisa que já me aconteceu na vida. Seu eufemismos. De verdade. Era um brutamonte, sem nenhum trato social ou paciência, que deve ter aprendido suas técnicas cirúrgicas num matadouro de porcos. Torceu e retorceu a cabeça da Dani em ângulos inaceitáveis até para um yogue faixa preta. Depois enfiou a agulha mais larga que eu já tinha visto no pescoço dela e ficou lá, por intermináveis minutos, cutucando, revirando, enfiando e tirando, forçando por vezes a sua jugular (ou carótida, sei lá!) numa tentativa de perfurá-la. O sangue, escuro e espesso, escorria pelo pescoço dela, enquanto, com a paciência e gentileza de açougueiro mal-humorado tentava fazer o seu trabalho.
Quando desistiu da jugular (ok, vamos continuar chamando de jugular) direita, partiu para o massacre da esquerda, com a mesma gentileza e trato. Nessa hora, Dani parecia uma gazela tendo o seu pescoço devorado por um leão na savana africana. Estava parada, os olhos sem movimento, respiração curta e acelerada, como se esperasse que o sofrimento, junto com a vida, fosse acabar logo.
Nesse momento, a gravidade foi mais forte que minhas pernas. O mundo começou a ficar cinza e sem sabor e precisei ir me deitar no chão do banheiro.
Os gemidos da Dani me chamaram de volta a realidade e retornei ao quarto. O Dr. Horse, com uma impaciência que não deveria ser característica de nenhum profissional que lida com qualquer tipo de vida, estava juntando suas coisas, solicitando o encaminhamento da Dani para o centro cirúrgico e praticamente culpando ela por não ter conseguido fazer o seu trabalho.
Não foram os meses de quimio, as complicações nas cirurgias, os sustos com as leucopenias, nem as noites de dor e enjôo que me fizeram chorar quando retornava para o Rio. Era sempre a imagem do Dr. Horse, atacando o pescoço da Dani, indiferente a sua dor e sofrimento que fazia com eu tivesse a certeza de que minha amada sofria com todo aquele processo.
por fim, uma reclamação: quem já teve a alegria e o prazer de conviver com cavalos, sabe da delicadeza e honra que esses animais tem. É uma injustiça com estes animais tão nobres compará-los àquele animal que se intitulava médico.
Por favor, libere o nome desse monstro!!! Esse cara TEM que perder sua licença de médico AGORA!!!
Filha, te amo mais que tudo….
Transformar um dos piores momentos da sua vida em um texto leve e gostoso de ler é, definitivamente, fantastico.
…
Droga, seu namorado me fez chorar…
Oi, Dani
Encontrei seu blog por acaso outro dia e achei o máximo. A gente ri e chora ao mesmo tempo.
Você realmente precisa transformar sua saga em livro!
E como vão as coisas? Você está no Rio?
beijo
Ah, e por favor, libere o nome desse monstro logo!
Droga, hoje eu chorei. Aliás, to chorando até agora. Que m.
Impotência. Sensação ruim, essa de ser só um bicho na mão de uma pessoa que te vê como ganha-pão. Em maior ou menor grau, todo mundo já passou ou vai passar por uma situação parecida. É uma droga. Estou chorando não só por você, com quem já criei empatia, mas por mim, pelos meus filhos, pelas pessoas que amo e que vi ou vou ver passar por isso também.
“Seja um cordeirinho e não torne o trabalho dos outros difícil”, é isso o que eles dizem nas entrelinhas, mesmo quando eles erram, e te retalham e a primeira coisa que fazem é colocar a culpa em você por estar ali, em primeiro lugar.
Também acho que deveriam dar nome ao Dr Horse. Sugerir ao Conselho Federal de Medicina que ele vá trabalhar numa penitenciária. E que fique interno. De preferência na ala dos presos muitos perigosos. E que o uniforme seja apenas uma sunga. Ai, que ódio…
Daniela, estou acompanhando desde o início, e só agora me dei conta de fazer uma pergunta, que não sei se será respondida, por “estragar o final”… mas vc já está bem? curada? já passou pela fase mais difícil?
Tenha ctz que o seu exemplo serve para muitas pessoas que passam pela mesma situação que vc!
Força!
Eu sou dentista. Normalmente não faço tratamento de canal, mas também não uso anestesia, porque sou ortodontista e, na minha especialidade, não precisa.
Eu posso, só pra você, misturar as coisas: faço o tratamento de canal nele, sem anestesia, com todo o prazer. Manda pra cá. O respeito com o paciente, o ser humano que está nas mãos do profissional de saúde, é a primeira coisa em que devemos pensar, mas por esse médico eu até perco meus pudores e faço o tratamento. Sem anestesia. E sem cobrar. Só pelo prazer.
Ai creeeeedo! Fiquei toda arrepiada aqui! =X
Libera o nome do médico pelo menos pra termos a oportunidade de correr longe!
Dani, eu entendo sua posição de não dar nome aos bois. Ou aos cavalos. Mas libera só esse, vai…
[...] hoje no blog da Daniela (Enzimas) o que o vulgo Dr. Horse fez com ela. Acho que ela deveria colocar o nome dele na internet. Só [...]
Nem foi pra forçar a nada não.
É que essa pressão a favor dos médicos já me irrita há muito tempo.
Hoje mesmo minha mãe me disse que se eu não tirar este post os médicos vão ler e me retaliar, me tratar mal e prejudicar meu tratamento.
Isso só demonstraria falta de profissionalismo. rs
Eu leio sua história voltando…
blog tem isso, né? Post recente primeiro,
posts mais antigos depois.
E assim eu vejo que hoje
você “ri” do que lhe aconteceu.
Hoje eu choro por você.
O que eu passei não foi metade do que você passou.
Mas hoje eu tenho certeza
que ajudei a tornar um médico melhor.
Quando meu primeiro caroço no seio foi descoberto por mim,
entrei em desespero achando que podia ser algo grave.
O masto que fez a punção foi um doce humorista.
Tentou me deixar tranqüila falando
para sua auxiliar de efermagem
dizer que a dela não havia doído nada.
- Ela trabalha para você, doutor! – foi a minha resposta
Ele riu e concordou comigo.
Foi atencioso, cuidadoso e levou a sério
meu medo infantil de agulhas.
Nota 10 para o Dr. Ursinho.
AHA! Mas não foi com ele que operei!
Eu fui a um hospital público, com os melhores médicos da área.
Não era um hospital-escola,
mas tinha mais residente que na China!
Eu acredito que médicos estudantes recém-formados
mas bem orientados são os melhores para sermos cobaias,
pois querem dar o melhor de si e o mais importante:
a Síndrome de Burnout não se instalou neles.
Voltemos aos fatos.
No exame pré-cirurgia, 7 residentes me apalparam,
me ignorando completamente: EU ERA UM PEITO APENAS!
Quando começaram a conversar com a
Ilustríssima Senhora Doutora Professora
sobre “o caso” (eu!) sem nem se apresentarem a mim
eu falei da forma mais irônica que pude:
- Helloooo??? Mim paciente, Ana Silvia, ser humano, mulher.
Descontraiu mas não mudou muita coisa.
A Ilma. Sra. Dra. Profa. tinha vaga para fazer minha cirurgia
no dia seguinte ou ela sairia de férias
e só depois de um mês de angústia
eu iria tirar aquilo de dentro de mim
e saber se era benigno ou maligno.
Aceitei a oferta dos deuses
e me preparei psicologicamente
para minha primeira cirurgia (a gente nunca esquece!).
Dia seguinte, véspera das férias da Ilma.,
ficamos eu e um casal de residentes no centro cirúrgico
literalmente esperando a Doutora chegar.
Ela apareceu aí na sua cirurgia? Nem na minha.
Devia estar fazendo as malas…
Os residentes resolveram começar sem ela.
Até aí eu concordei porque era para ser só o começo, né?
Limpa daqui, passa iodo dali, anestesia local,
começa a cortar e eu vendo tudo pelo reflexo da luminária,
até o residente turco-colombiano perceber
e mudar a posição da lâmpada
para eu não acompanhar a novela cirúrgica.
Detalhe: eu cantava. Cantava mesmo. Baixinho.
Era uma forma de me acalmar.
Até que eu parei de cantar e prendi a respiração
quando ouvi o residente comentar preocupado
com a colega que o auxiliava:
- Tá mais profundo do que nós imaginávamos!
Preciso dizer que eu comecei a chorar???!!!
Agora vem a pérola do futuro médico
candidato a Dr. Little Horse:
- Você tá chorando por quê? Tá doendo?
Num gemido eu respondi: – Nãããão…
Quem me salvou nessa hora
foi a residente Mulata Globeleza que disse:
- Farid, você diz que o negócio tá pior
do que a gente imaginava e você quer que ela ria???!!!
Nota 10 para a Globeleza!
Rimos todos e ele explicou que não estava pior,
só mais profundo mas que ele conseguiria remover
pela incisão feita ao redor da auréola.
Depois disso, era para eu nunca mais tê-lo procurado, né?
Existe todos os tipos de cobaias… inclusive eu!
Ele é meu mediCUzinho até hoje! kkkk
Se tornou extremamente atento com as palavras
e só faz minhas cirurgias de remoção de fibroadenoma
comigo DORMINDO, para eu não ouvir nenhum comentário.
Nota 10 para o Dr. FARID BUITRAGO!
Daniela, você pode achar que não fez diferença
o que você fez, o que você falou
mas alguém deve estar recebendo
um tratamento melhor que o seu
mas oferecido pelo quase mesmo Dr. Horse!
beso e força!
Dani, boa tarde! Meu nome é Angélica, sou enfermeira e entrei no google para fazer uma pesquisa sobre port a cath e nisso encontrei por acaso a sua história. Na área da saúde existem profissionais e profissionais, entende? Eu amo a minha profissão, acredito em primeiro lugar que estou lá para tirar o sofrimento das pessoas, e a sua história eu já vi várias vezes… o profissional esquece que está lidando com o ser humano, que tem sentimentos, que tem medo, que não entende nada das coisas que acontecem e o pior, que sente dor! É triste ouvir histórias como a sua, mas espero que Deus te proteja e que vc vença pelo oque está lutando!
Um abraço.
Angélica