Feeds:
Posts
Comentários

Exemplo de vida

Eu brinco com essa história de inspirar multidões e ser um exemplo de vida, mas na realidade eu sei a grande chorona desesperada que sou. Enquanto eu contava minha história nesse blog, o verdadeiro herói narrava, em tempo real, sua batalha contra a leucemia. Um ‘cerumano’ maravilhoso que lutou até o fim contra um monstro implacável, sem nunca perder a esperança e o bom humor. 

Essa semana, descobri que a saga do herói não teve um final feliz. O guerreiro Felippe partiu, mas deixou sua história flanando pela internet, nos ensinando a ver a vida com outros olhos e, principalmente, inspirando multidões.

Anúncios

Isenção de impostos

A pessoa descobre que tem um caroço no seio e passa as vinte noites seguintes dormindo à base de calmante. Depois da biópsia, que a coloca na estatística das portadoras de neoplasia mamária, começa a gincana de exames preparatórios para a cirurgia (incluindo uma ressonância magnética de 1700 reais que o convênio médico deveria ter pago). Haja calmante!

De posse dos resultados dos exames, a nova portadora de neoplasia entra numa correria insana atrás de um filho-da-puta que tire logo aquela bomba-relógio de dentro de seu organismo. Tudo resolvido, ela passa por uma dolorida mastectomia, que arranca um seio, um teco da axila e transforma seu braço esquerdo (que já não era muito esperto) em um bracinho de borracha pra lá de bobo. Para suportar a dor, haja analgésico!

Nos meses seguintes, a pessoa entra num ciclo que envolve quimioterapia, enjôo, internação, sala de cirurgia, quimioterapia, enjôo, internação, sala de cirurgia… Dá adeus aos cabelos e à vaidade por um tempo até que, finalmente, consegue dormir uma noite inteira sem acordar assustada com uma voz gritando “meudeus, eu tive um câncer!” berrando dentro da cabeça. De souvenir dessa louca viagem, ganha um seio novo e três quilômetros de cicatrizes pelo corpo.

Então, quando a pessoa começa a pesquisar quais os documentos necessários para ganhar isenção de impostos na compra de um carro automático – já que o bracinho não levanta nem uma garrafa de refrigerante -, encontra na internet pessoas indignadas com o benefício concedido aos portadores de neoplasia mamária… Haja paciência!

Mulheres portadoras de câncer de mama, que sofreram mastectomia, têm direito à isenção do IPI e ICMS na compra do carro e também não pagam IPVA. Você pode se informar sobre isso ligando para esta auto-escola, por exemplo. E quem não concorda com esse direito, torça para descobrir um caroço também e ganhar esse desconto, que tal?

Gente, eu sei que tenho sido uma péssima anfitriã. Meu blog querido está abandonado há várias semanas e eu mal comecei a contar da viagem. Acontece que eu tenho uma boa desculpa – por que eu tenho a sensação de já ter dito isso antes?…

Para quem não se lembra – ou não fazia questão de saber -, aqui vão alguns tópicos da minha vida antes da viagem pra Paris (eu sei que passei por três países, mas por algum motivo misterioso eu só me refiro àquelas férias como a “viagem pra Paris”…). Bom, vamos aos tópicos:

Eu morava no Rio(1) com meu namorido e um casal de Schnauzers(2). Fazia trabalhos freelancers(3) em casa e não dirigia(4) desde a mastectomia, em março do ano passado.

Mas a vida, senhores, a vida é uma caixinha de surpresas. Três meses depois do último Censo na minha vida, nada daquilo continua valendo. Alguns temporariamente, outros em definitivo. Explico.

A partir de agora, Dae e eu somos, pelo menos oficialmente, moradores da cidade de São Paulo(1). Eu começo a trabalhar como funcionária contratada(3) numa editora nos próximos dias e, graças a essa confusão de mudança de cidade e emprego, não vejo meus filhos(2) há mais de um mês. No meio disso tudo, participo do processo de renovação da carteira de motorista(4) para retirar uma CNH especial, já que a mastectomia me jogou, com uma certa razão, na categoria de deficientes físicos. Pelo menos para o Detran. Aliás, esse será o assunto do próximo post. Ou não.

Enfim, prometo tentar atualizar o blog com mais freqüência (já aboliram o trema?), ok? Até lá.

Fotos de Paris

DSCF5435 

Na Île de la Cité, o bairro mais fofo de Paris

13052008224

Fila para entrar na Torre Eiffel, ansiosos

DSCF5950 

No terceiro nível da Torre Eiffel, levemente decepcionados com o passeio

DSCF5597

Pigalle, pertinho do hotel

11052008116 

Fonte dos Inocentes, a caminho de Les Halles

DSCF5541

Igreja St.Eustache, deslumbrante

DSCF5891

Jardim de Luxemburgo, final de tarde (tipo, oito da noite…)

DSCF5779

Baguete na calçada, em frente ao Pantheon

 12052008199

Portinha do Pantheon

12052008176

Museu da Idade Média, parque de diversão pro Dae

DSCF6054 

Museu do Rodin, depois de uma ou duas taças de vinho no almoço

13052008298

Parada estratégica no jardim do Museu do Rodin

DSCF6555 

Basílica Sacré-Coeur, depois de subir 20.861 degraus

DSCF6339

Passeio de barco no Rio Sena, depois de uma chuvinha rápida

14052008398 

Museu do Louvre, na presença do quadro mais famoso do mundo

DSCF6632

Arco do Triunfo, dez minutos antes do fechamento do metrô (meia-noite)

Atraso

Querem saber por que diabos, mesmo tendo chegado há mais de duas semanas, eu só publiquei dois posts narrando minhas aventuras no Velho Continente?

Acompanhem o drama.

Aliás, foi também meu namorido quem tirou essa linda foto no cabeçalho do blog.

Paris

Tudo que eu me atrever a escrever sobre Paris será pouco. Mesmo que eu publique todas as fotos que tirei na cidade, numa tentativa de reproduzir virtualmente cada rua, cada esquina, cada vasinho de flores na janela, eu não conseguirei transmitir minhas impressões sobre Paris. Nem que eu escreva aquelas cartas quilométricas, cheiras de ‘i’s com pingo em formato de coração, nem assim vocês entenderão o quanto eu me apaixonei por aquela cidade.

Quando saímos do hotel pela primeira vez, cruzamos com um grupo de jovens bêbados, rindo e falando alto, que estendia a noitada de sábado até as nove da manhã do domingo. Ao notar a presença do casal de turistas na rua, um deles veio em nossa direção. Meu coração brasileiro, acostumando à violência urbana, disparou. “Ele vai levar nossas câmeras, nosso dinheiro, nossos passaport…”

“BIENVENUE A PARIS!!”.

Sabe quando aquele(a) gato(a) por quem você está enlouquecidamente apaixonada(o) liga no meio da tarde só pra dizer que está morrendo de saudades? Foi mais ou menos essa satisfação que eu senti diante daquele parisiense sorridente, nos dando as boas-vindas e derrubando o mito de que os franceses são arrogantes.

Aliás, os franceses se mostraram muito simpáticos e prestativos. Incrivelmente perspicazes, eles notavam que se tratava de uma turista assim que eu tentava me comunicar. Eu mal cumprimentava (cumprimenta-se muito na França, uma média de oitenta ‘bonjour’s/’bonsoir’s por dia) e meu interlocutor já começava a gastar seu inglês. Considerando a minha fluência no idioma local, sobrava minha pele bronzeada e minha ginga e malemolência tropical para explicar o fato.

No terceiro dia, sofrendo com uma inflamação teimosa no joelho, resolvi pedir ajuda. Carregando meu dicionário Português/Francês/Português embaixo do braço, como eles carregam suas baguetes, entrei numa farmácia disposta a explicar à atendente o que me afligia. E sair de lá com uma solução de Primeiro Mundo.

– Bonjouuuuuur! – assim, cantado, porque francesa de verdade dá ‘bom dia’ cantando.

– Bonjouuuuuur! – respondeu a saltitante parisiense.

– Eu não fala francês muito bem, mas eu vai tentar, ok?

– Ok. (Notem a gentileza. Eu teria fingido um desmaio ou coisa parecida)

– Minha joelho é doente. Minha joelho não tem problema no músculo, é talvez nervo. Minha joelho dói quando eu anda. Existe patch que melhora dor? Aqueles patch que tira dor, você vende? Ou alguma remédio para engolir, você vende?

– Blablabla patch, blablabla antiinflamatório, blablabla calor e frio, blablabla à noite, blablabla.

– Quanto custa?

– Oito euros – respondeu ela, em inglês, talvez por causa da minha cara de desespero enquanto ela explicava como funcionava o patch.

– É bom, eu quero. Obrigada.

E não é que o tal patch era mesmo eficiente? Ao ser aderido à pele, ele provocava um forte calor na região durante oito horas. Três ou quatro noites dormindo com o patch colado na perna – e sofrendo ao descolá-lo pela manhã -, meu joelho parou de me atormentar. Àquela altura, o inchaço nas canelas, provocado pelas intermináveis horas de vôo, já havia diminuído bastante e eu não tinha mais a sensação de possuir quatro coxas. As rachaduras nos lábios, que eu ganhei no primeiro dia de alta exposição solar, começavam a melhorar. Agora restavam apenas as incontáveis bolhas nos pés que se formavam diariamente, mesmo com o Dae estourando uma a uma no final do dia. Com a viagem ainda na primeira semana, eu decidi que aquele era um preço justo a se pagar e estava disposta a disfarçar a dor e as lágrimas nos olhos fingindo emoção com a beleza da cidade.

A pele bronzeada, a ginga e malemolência da mulher brasileira no Campo de Marte, em Paris

A volta

A pessoa não tem o menor senso de cronologia e começa a narrar as histórias pelo fim… tsk, tsk.

Daqui a pouco eu volto pra continuar de onde parei.